domingo, 28 de agosto de 2011

Aquilo que nos marca


“Há uns que nos falam e não ouvimos;
há uns que nos tocam e não sentimos;
há aqueles que nos ferem e
nem cicatrizes deixam, mas...
há aqueles que simplesmente
vivem e nos marcam por toda vida”

"Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história".

(Hannah Arendt)

A rotininha

Ultimamente estou bem "rotininha"... aquela clássica "todo dia ela faz tudo sempre igual" é bem verdade nesse momento! Trabalho multiplicado por três, sem grandes aventuras ou descobertas, sem enxergar coisas inusitadas no meio dia nem me surpreender com as situações. Deixa estar, é um momento e logo passa.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

O caos da ordem

Em Londres, estamos perante a denúncia violenta de modelo que tem recursos para resgatar bancos, mas não os tem para uma juventude sem esperança

Os motins na Inglaterra são um perturbador sinal dos tempos. Está a ser gerado nas sociedades um combustível altamente inflamável que flui nos subterrâneos da vida coletiva sem que se dê conta.
Esse combustível é constituído pela mistura de quatro componentes: a promoção conjunta da desigualdade social e do individualismo, a mercantilização da vida individual e coletiva, a prática do racismo em nome da tolerância, o sequestro da democracia por elites privilegiadas e a consequente transformação da política em administração do roubo "legal" dos cidadãos. Cada um dos componentes tem uma contradição interna.
Quando elas se sobrepõem, qualquer incidente pode provocar uma explosão de proporções inimagináveis. Com o neoliberalismo, o aumento da desigualdade social deixou de ser um problema para passar a ser a solução.
A ostentação dos ricos transformou-se em prova do êxito de um modelo social que só deixa na miséria a maioria dos cidadãos porque estes supostamente não se esforçam o suficiente para terem êxito.
Isso só foi possível com a conversão do individualismo em valor absoluto, o qual, contraditoriamente, só pode ser vivido como utopia da igualdade, da possibilidade de todos dispensarem por igual a solidariedade social, quer como agentes dela, quer como seus beneficiários.
Para o indivíduo assim construído, a desigualdade só é um problema quando lhe é adversa; quando isso sucede, nunca é reconhecida como merecida. Por outro lado, na sociedade de consumo, os objetos de consumo deixam de satisfazer necessidades para as criar incessantemente, e o investimento pessoal neles é tão intenso quando se têm como quando não se têm.
Entre acreditar que o dinheiro medeia tudo e acreditar que tudo pode ser feito para obtê-lo vai um passo muito curto. Os poderosos dão esse passo todos os dias sem que nada lhes aconteça. Os despossuídos, que pensam que podem fazer o mesmo, acabam nas prisões.
Os distúrbios na Inglaterra começaram com uma dimensão racial. São afloramentos da sociabilidade colonial que continua a dominar as nossas sociedades, muito tempo depois de terminar o colonialismo político. Um jovem negro das nossas cidades vive cotidianamente uma suspeição social que existe independentemente do que ele ou ela seja ou faça.
Tal suspeição é tanto mais virulenta quando ocorre numa sociedade distraída pelas políticas oficiais da luta contra a discriminação e pela fachada do multiculturalismo.
O que há de comum entre os distúrbios da Inglaterra e a destruição do bem-estar dos cidadãos provocada pelas políticas de austeridade comandadas por mercados financeiros? São sinais dos limites extremos da ordem democrática.
Os jovens amotinados são criminosos, mas não estamos perante uma "criminalidade pura e simples", como afirmou o primeiro-ministro David Cameron.
Estamos perante uma denúncia política violenta de um modelo social e político que tem recursos para resgatar bancos e não os tem para resgatar a juventude de uma vida sem esperança, do pesadelo de uma educação cada vez mais cara e mais irrelevante, dados o aumento do desemprego e o completo abandono em comunidades que as políticas públicas antissociais transformaram em campos de treino da raiva, da anomia e da revolta.
Entre o poder neoliberal instalado e os amotinados urbanos há uma simetria assustadora. A indiferença social, a arrogância, a distribuição injusta dos sacrifícios estão a semear o caos, a violência e o medo, e os semeadores dirão amanhã, genuinamente ofendidos, que o que semearam nada tem a ver com o caos, a violência e o medo instalados nas ruas das nossas cidades.


BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, sociólogo português, é diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Portugal). É autor, entre outros livros, de "Para uma Revolução Democrática da Justiça" (Cortez, 2007).

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Casa Arrumada - Carlos Drummond de Andrade


Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa
entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um
cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os
móveis, afofando as almofadas...
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida...
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras
e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições
fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio
da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,
passaporte e vela de aniversário, tudo junto...
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos...
Netos, pros vizinhos...
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca
ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias...
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...
E reconhecer nela o seu lugar.

domingo, 24 de julho de 2011

Não sentir saudades


Falamos muito sobre sentir saudades, mas pouco falamos sobre a alegria de não sentir saudades de algumas coisas.
Quando tomamos decisões e seguimos em frente, não sentimos saudades da angústia que vivemos no tempo anterior.
Aliás... acho que não sentir saudades é um bom sinal para muitas coisas: fim de um relacionamento, novo emprego, mudança de cidade, e por aí vai. É bom saber que a missão foi cumprida, que estamos "zerados" como se diz. É bom olhar para a vida com gratidão por tudo o que foi e saber que estamos onde devemos estar!

Grandes questões respondidas por Luís Fernando Veríssimo

Pra rir um pouco...


Vida?
A melhor coisa que eu conheço para passar o tempo.

Morte?
A última coisa que eu quero que me aconteça.

Vida depois da morte?
Dizem que tem, mas é só para debater esta.

Reencarnação?
Quero voltar como eu mesmo para não ter que tirar outro título de eleitor.

A nossa insignificância diante do universo infinito?
Chato, e o pior é quando a mulher nos lembra disso na frente das visitas…

Ser ou não ser?
Ser, é claro. Se bem que não ser tem algumas vantagens fiscais…

A angústia existencial diante da transitoriedade de tudo?
Isso passa…

O cérebro humano está capacitado a responder a todos os enigmas da existência?
Pode repetir a pergunta?

Um sistema econômico voltado para as necessidades sociais e não dominado pela cupidez humana?
Dependendo do cachê, eu apóio.

O que é mais importante: a genética ou o meio?
Depende. Se eu tivesse que escolher entre um nobre inglês criado por macacos ou um macaco criado por nobres ingleses para companheiro de dormitório, pediria um quarto separado.

Existe um ser superior que dirige as nossas vidas?
Existe, mas ninguém entende como ele passou no psicotécnico.

Para onde caminha a humanidade?
Não sei. Mas quando souber, vou para o outro lado…

Orgulho de mim


Sinto orgulho de mim quando deixo espaço para as coisas boas permanecerem, quando freio a mania de julgar alguma coisa ou alguém, quando consigo "segurar a onda" de uma tendência natural a "tocar fogo" nas coisas por alguma razão que me irrite...
Sinto orgulho de me ver amadurecendo e sendo mais feliz! Esse orgulho não é aquela arrogância de se achar melhor do que os outros, não. É um contentamento por perceber que estou aprendendo alguma coisa com a vida...!